16 de maio de 2014

O banco mais vantajoso e infalível

Pe. André Beltrami
Livro de 1938 - 112 págs



[...] A oração, o jejum e a esmola foram sempre consideradas as obras mais agradáveis a Deus e mais próprias para merecer a sua graça. Por isso é que a Sagrada Escritura as recomenda continuamente e no Antigo e no Novo Testamento. Deixando agora a oração e o jejum, para falar da esmola [...]

CAPÍTULO II
UM BANCO INFALÍVEL 
Ha, porém, um banco infalível, no qual deveriam pôr seus capitais todos os cristãos, certos de que se locupletarão no tempo e na eternidade, na terra e no céu. Esse banco conta já milhares de anos de existência e nunca abriu falência, e temos firme certeza que há de durar até o fim do mundo. As pessoas sábias e previdentes, que pensam, seriamente nos seus verdadeiros interesses, sempre confiaram a ele os seus bens e dele tiraram riquezas inexauríveis. Moisés recomenda este banco ao seu povo em muitíssimos lugares de sua lei; e a maior parte dos livros do Antigo Testamento o exalta com louvores magníficos. O livro de Tobias parece escrito unicamente para demonstrar a sua utilidade, a sua grandeza, as vantagens imensas que traz consigo; e um Anjo descido do céu tece-lhe o mais belo elogio, recomendando-o a todos.

Jesus Cristo, vindo à terra, falou muitas vezes de tal banco, altamente e encomiou e o propôs aos seus sequazes.
Mas, que banco misterioso é esse? Os nossos corteses leitores já adivinharam; esse banco privilegiado é a esmola.
O próprio Deus, criador de todas as coisas, senhor de todo o ouro do mundo, é o banqueiro, que não pode falir, e é fiel a pagar os juros. Os agentes do banco são os pobres, que recebem em nome dele. Tudo quanto damos aos necessitados para aliviá-los nas suas misérias, em dinheiro, alimento, vestiário ou abrigo, é como se o déssemos ao mesmo Deus. Os pobres são uma continuação, uma imagem real, um retrato perfeito de Jesus sofredor, o qual é honrado e servido na pessoa deles. Nosso Senhor considera feito a si mesmo tudo quanto fazemos em favor dos pobres. Até o copo d'água dado em seu nome ao sedento terá recompensa. O Divino Redentor repetiu muitas vezes esta confortadora doutrina, que o pobre é seu representante na terra. Na descrição do Juízo Universal ele a tornou óbvia e familiar com um diálogo que vale por um tratado e contém a mais alta filosofia.
No dia em que os homens deverão dar contas das riquezas que Deus lhes colocou nas mãos, Ele dirá com ar de júbilo aos eleitos: — «Vinde, benditos de meu Pai, vinde possuir o reino que vos está preparado desde o início dos tempos. Pois que, eu tive fome e vós me destes de comer; eu tive sede e vós me destes de beber; andava peregrino e me destes pousada; estava nu e me destes de vestir; estava enfermo e me visitastes; estava preso e me consolastes». Admirados de tal modo de falar, dirão os justos: — «Quando vos vimos faminto, sedento, peregrino, nu, enfermo e preso, e fomos em vosso socorro? E responderá Jesus: — «Tudo o que tendes feito aos pobres, eu o considero feito à minha pessoa».
Voltando-se depois para os maus, os exprobrará por terem-no desprezado nos pobres, afirmando que todas às vezes que negaram uma esmola aos necessitados, fizeram uma injúria a Ele.
Os pobres são, pois, os agentes do banco divino, que recebem os capitais, em nome de Deus; e o que depusermos em suas mãos será entregue a Jesus Cristo, que nos recompensará nesta vida e na outra. O nosso bom Anjo da Guarda, à guisa de fiel secretário, toma nota das esmolas e das obras de caridade que fazemos.
Ora, se esta é a verdade, porque não pomos os nossos capitais nesse banco? Deus, que é o banqueiro, pode talvez falir? Ele que é o Senhor do mundo, que depositou o ouro e os diamantes nas entranhas das rochas e no seio dos montes, pode talvez tornar-se pobre e nos arrastar à miséria, como fazem os banqueiros deste mundo? Não. Ele é infalível e nos enriquecerá no tempo e na eternidade.
~ * ~
Excertos

Como eram belos os primeiros tempos do Cristianismo, quando o supérfluo era entregue aos Apóstolos para ser distribuído ás viúvas, aos órfãos e a todos os necessitados! quando a multidão dos crentes formava um só coração e uma só alma para amar e servir a Deus!
Podem aqueles belos tempos voltar e o meio para isso é a caridade, é a esmola, é a guerra à avareza e ao egoísmo individual.
Demos esmola, e seremos abençoados por Deus como o foi o santo velho Tobias, que recebeu cem por um nesta vida e a glória eterna na outra.
 Os primeiros cristãos eram observantes do preceito da caridade e entregavam aos Apóstolos o supérfluo, para que distribuíssem aos necessitados. Os Atos dos Apóstolos lembram com reconhecimento a Tabita, senhora piedosíssima, que empregava em boas obras tudo quanto tinha, socorrendo os indigentes; e foi ressuscitada por S. Pedro como prêmio de suas virtudes. Os pagãos pasmavam, ao ver a união e a caridade que reinavam entre os cristãos e diziam uns aos outros: — Vede como se amam!  — É célebre o exemplo de S. Pacômio, o qual se converteu ao cristianismo admirando a caridade fraterna que reinava soberana entre os prosélitos de Jesus Cristo.— " Uma religião que dá tais preceitos, disse ele, por certo que é divina"— e abraçou-a.
 Na ordem da criação, o rico é o tesoureiro do pobre, obrigado a prover às suas necessidades. Deus o favoreceu com riquezas, não para que as malbaratasse e gozasse a seu talante, mas para que socorresse os infelizes. Jesus Cristo ordenava que o supérfluo seja dado de esmola. Deve, pois, o rico dar muita esmola. Podia Deus distribuir igualmente os bens da terra e sustentar todos os homens como faz com a erva do prado, o lírio do campo, a árvore da floresta; invés, quis as desigualdades sociais, ordenando que uns auxiliassem os outros.

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